Alguns Dilemas da Gestão Escolar

 

A função do Gestor Escolar, dentro da realidade da Educação brasileira, oferece desafios complexos. Atender as demandas por resultados (produto),  compreender e atender os casos e as causas dos diversos níveis de problemas e situações envolvendo os mais variados interesses (processo), que fervilham no palco social chamado escola, para solucioná-los satisfatoriamente. Esses são alguns pontos bem evidentes. Nesse contexto é possível observar algo curioso e traduzi-lo em perguntas: A escola que se propõe a oferecer EDUCAÇÃO para seu público, geralmente crianças de diversas classes sociais, está cumprindo o seu papel? Com tantas inovações tecnológicas e informação instantânea, o atual formato do trabalho pedagógico que se pratica na maioria das escolas atende as necessidades de seu público? Qual sugestão para ação eficiente do Gestor Escolar pode ser viável? Como a Gestão Escolar pode, ou poderá ser a peça-chave para conduzir um processo efetivo de aprendizagem para TODOS? Dilemas.

Os dados obtidos a partir das avaliações educacionais mostram o retrato da Educação no país, carregando implicitamente questões de difíceis respostas. A começar pelas questões das “necessidades de seu público” referida acima, cabe uma reflexão. Na escola, geralmente a gestão, os docentes e a equipe conhecem e até dominam com maestria o que se pretende ensinar no campo das disciplinas convencionais, principalmente Língua Portuguesa e Matemática. Conhecem a grade curricular, preparam seus planos de trabalho e os executam. Trabalham arduamente. Conhecem, também, o ambiente escolar,  cada repartição do prédio com seus detalhes. Conhecem ainda outros tantos fatores. Pensando sobre os conhecimentos dos agentes que compõe a equipe escolar, comandadas pelo gestor, surgem algumas questões: E a necessidade do público, quem conhece? Como conhece?

O grande mestre educador Paulo Freire, escreveu que “todos na escola são gente”. Essa sentença tem uma significância bem maior, além de os personagens atenderem por um determinado nome. E é sobre esse ponto em especial que esta reflexão quer tratar. Uma vez que “todos na escola são gente” (argumento incontestável), “… um lugar onde se faz amigos”, como sustenta nosso mestre, é simples compreender que todos têm sentimentos, crenças, necessidades, angústias, frustrações, (e até traumas), e desejos e realidades distintas. Isso leva a imaginar que os conflitos que muitas vezes surgem no ambiente escolar, ocorrem em razão das peculiaridades de seres que, diante de uma mesma situação se e comportam de modos diferentes, o que é algo natural.

Nesse cenário em que há muitos trabalhadores empenhados e lutando incansavelmente por melhores resultados, porém ser ter uma resposta clara sobre o que fazer e como fazer para alcançar seus objetivos, percebe-se a ausência de determinados detalhes. E, esses detalhes faltantes, apesar de serem classificados, entendidos e interpretados por diversos prismas, ao que parece, não são atacados de modo a surtir efeitos positivos em larga escala. Existe, em função disso, uma ansiedade por “algo milagroso”, capaz de melhorar os resultados da aprendizagem dos estudantes brasileiros. Mais dilemas.

Aqui se apresenta um ponto vista sobre a aprendizagem dos alunos a partir da visão do Gestor Escolar. Tal ponto de vista emitido a partir de experiências vividas no trabalho como gestor escolar se baseia ainda na pesquisa Qualidade com Equidade realizada pelo pesquisador Ernesto Martins Farias para a Fundação Lemann. Levando em conta a realidade da escola brasileira, considerando suas particularidades e discrepâncias, mesmo assim, alguma coisa há em comum. Elas trabalham com crianças/adolescentes e, evocando Paulo Freire, “todos, em seu ambiente são gente”. Pois bem, considerando que o gestor e a equipe conhecem bem o currículo, as disciplinas, o plano de trabalho e a escola. A questão é: eles conhecem os estudantes? Conhecer, aqui se destaca, porque significa saber bem mais do que nome, data de nascimento, filiação, ano de matrícula, endereço, religião, time de preferência e gênero. Significa saber o que querem e porque querem. O que sentem e como sentem. E, principalmente, como aprendem. Quais dificuldades impedem sua aprendizagem. As causas dessas dificuldades, suas angústias, traumas, frustrações, seus sonhos, e em alguns casos a falta de sonhos. Isso pode parecer simples para ser escrito, para ser praticado, no entanto é um imenso desafio que varia em dimensão, proporcionalmente aos recursos estruturais e humanos que haja em cada escola e secretaria. Quando essas questões são respondidas afirmativamente, os exemplos vistos tem sido positivos. Isso requer interatividade e convivência saudável, um ambiente estruturado de forma tal que permita descobertas de novas abordagens dos temas educacionais e o cultivo da solidariedade, da tolerância, da ética e de valores sólidos que permitem relações harmoniosas e propícias à aprendizagem, ao protagonismo e ao desenvolvimento pleno de cada estudante.

Os números gerais da Educação brasileira, que levam em conta a aprendizagem dos alunos (PISA, Ideb, Enem, etc), tomado como feedback, acende um sinal de alerta, indicando que o processo em si precisa ser revisto. Quando analisados os resultados das escolas individualmente, alguns pontos chamam a atenção.

Aqui segue um comentário particular feito a partir de observações dos resultados de algumas escolas apenas, e não um estudo aprofundado. E, essa observação faz saltar aos olhos um fato que se encaixa na afirmação de Paulo Freire, citada anteriormente, referente as condições de todos os personagens que fazem parte da escola. Traduzindo: quando a gestão escolar consegue, por uma lado identificar quais são as reais necessidade de seus alunos, quais os fatores que fazem sentido para eles, e por outro lado, envolver toda a equipe nesse mesmo espírito de comprometimento com a causa APRENDIZAGEM DE TODOS OS ALUNOS, os resultados obtidos destoam daqueles gerais. Fazendo aqui, uma associação com os estudos de David Ausubel, nesse contexto de aprendizagem significativa e eficiente, um dos pontos que se percebe é que, antes de querer ou tentar ensinar, a escola (compreendida aqui gestão, equipe e comunidade), precisa aprender. Aprender o que? Aprender a entender melhor seus alunos. Aprender a gostar de gente e a tratar gente como gente. Naturalmente, que a escola tem a função pedagógica. Isso é uma realidade. A pergunta a ser respondida talvez seja: se a escola continuar tentando ensinar apenas as disciplinas do currículo, a aprendizagem vai melhorar? Os resultados das avaliações irão melhorar? A sociedade será mais desenvolvida? Os índices de violência diminuirão? A História mostra que não. Os exemplos bem sucedidos de escolas que humanizaram o atendimento aos seus alunos, começando por um trabalho de preparação de seus profissionais e disseminando isso pela comunidade, servem como prova de que há algum ponto de luz no túnel, possivelmente antes do fim.

Esses dilemas que a Gestão Escolar enfrenta tentando descobrir o que fazer e como fazer para melhorar os resultados de sua escola tira o sono de muitos profissionais. É um dos grandes desafios profissionais da educação conviver com essa incômoda realidade. Saber o que quer ensinar é simples, o complexo tem sido descobrir o que o estudante quer aprender, ou de que forma e em qual ritmo ele aprende. Quem se dispõe a lutar por essa causa com a paixão que ela requer acredita ser possível atender seus estudantes com qualidade e isso requer conhecimento, empatia e dedicação.  

Neste comentário o objetivo foi chamar a atenção para fatores simples que podem transformar a realidade atual. A ênfase dada ao assunto vem dos exemplos já registrados em pesquisas de escolas que mesmo em condições desfavoráveis, quando mudaram suas práticas no trato com os alunos obtiveram resultados expressivos. Independente de quem vai fazer o trabalho, para que a aprendizagem aconteça precisa haver antes as condições para isso e uma das condições para realizar algo seria o desejo. Como despertar o desejo de aprender as disciplinas do currículo se as necessidades básicas de um estudante não estiverem previamente atendidas? Difícil, certo? Que tal cuidar do ser para depois do aprender? Aqui cabe repetir que a escola que tanto quer e tenta ensinar precisa começar a aprender. Aprender a tratar gente como gente e assim, aprendendo a aprender, estará apta para que nela todos aprendam. Reforçando a ideia de Paulo Freire: “… numa escola assim vai ser fácil, estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz”.

 

Referências

Sites

http://blogs.odiario.com/odiarionaescola/tag/paulo-freire/_ Acesso em 20 de novembro de 2017.

http://www.fundacaolemann.org.br/wp-content/uploads/2015/12/Excelencia_com_Equidade_Anos_Finais-1.pdf/ Acesso em 20 de novembro de 2017.

https://novaescola.org.br/conteudo/262/david-ausubel-e-a-aprendizagem-significativa Acesso em 20 de novembro de 2017.

Imagem: Freepik

1 Comment

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  1. Alessandra Abreu Magalhães do Nascimento

    15/06/2018 at 5:00 pm

    Bom, hoje a sociedade se encontra doente, presa às tecnologias, poucos brincam na rua, no meu tempo o professora era uma segunda mãe, a professora era vista como uma ajudadora para das famílias e a escola como o segundo lar, mas com o tempo as redes sociais foi destruindo essa relação família escola, professor aluno, a mudança não deve vir só da escola, mas das famílias também, hoje os filhos não se abrem mais, os pais também nem dão conta que seus filhos precisam conversar, com isso cada vez mais o trabalho nas escolas fica mais difícil!! Chegar nos alunos fica mais difícil, diálogos vão se acabando e as redes sociais vai avançando cada vez mais tomando o espaço da essência humana.

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