Professor como ator

 

A complexidade natural da atividade docente pode ser inserida em diversos campos de análise. As linhas que seguem uma rápida analogia,  colocam esse personagem emblemático da vida de todo indivíduo que passa por uma escola, como um verdadeiro ator, que entra em cena para se fazer presente em infinitas representações.

A primeira professora a gente lembra pela vida inteira. É provável que o professor não consiga se lembrar de todos os alunos que passam por sua vida profissional. Todavia, cada aluno lembra de seus professores e professoras. Essa interação professor-aluno e aluno-professor é geradora de situações e circunstâncias ímpares que se traduzem em aprendizagens, em vínculos, em admiração e até mesmo em devoção. Nesse contexto, começa aparecer uma semelhança entre a realidade da sala de aula e o palco teatral. A palavra que parece preencher o espaço das similaridades entre essas realidades apresentadas é Encantamento. Se em uma peça teatral a satisfação do público é proporcional à capacidade encantadora, por outro lado,  na sala de aula a eficácia do trabalho feito é também proporcional ao interesse que seja capaz de despertar no público esse encantamento.

No centro desses episódios estão os atores. Assim como seres vivos, humanos que são, os atores parecem ter “duas vidas”. A vida real, com as peculiaridades normais e a vida do palco, ou no palco. A vida real apresenta para cada um realidades diferentes e segue cursos diferentes, com detalhes que cada um, em seu ambiente, conhece, administra e compartilha de acordo com seus valores e objetivos. A “vida do palco” apresenta características que somente o ator conhece. Quando as cortinas se abrem, tudo deve estar perfeito, o show vai começar. Aliás, começou. É hora de encantar a plateia com uma representação que faça sentindo (apesar de fictícia). É preciso dominar a arte, colocar a alma e muita paixão em cada detalhe. É preciso “viver” o personagem e nessa “vida” interagir com a plateia, encantada pelos sentidos e sentimentos. Assim, a qualidade da peça é julgada como boa, ótima, excelente. Ela, pelo poder de encantar,  emocionou o público. Nesse caso, os atores são vistos como celebridades, são ovacionados e reconhecidos, quando as cortinas se fecham caem na graça de seus fãs.

A sala de aula, outra forma de palco, nela interage também o ator com o público. Essa interação da sala de aula carrega peculiaridades diversas que não se podem resumi-las a um comentário rápido. O que trata este texto é de algumas similaridades entre as referidas práticas. No palco chamado sala de aula, a dinâmica é outra, porém, ali estão em interação um ator (professor) e o público (alunos). Abrem-se as cortinas e o show está acontecendo. O desenrolar da cena deverá encantar a todos. Usando sentidos e sentimentos, colocando alma, paixão e amor em cada detalhe e assim criar canais por onde possam fluir a aprendizagem.

Essa interação com encantamento, com infinitas variáveis em seus meios e fins, está presente tanto no teatro quanto na sala de aula. O Ator que leva a mensagem ao público, tanto no teatro quanto na sala de aula, precisa entender e compreender as particularidades desse público para interagir de modo a provocar o encantamento, pois só assim a interação fará mais sentido. Eis o que diz a professora e atriz Isabela Cotrim:

“Professores são atores em sala de aula. E o que é melhor: com um público fiel. Eles têm um poder de
transformação muito grande nas mãos. Neste tempo aprendi e continuo aprendendo muito! Talvez até mais do que ensinei. Aprendi sobre a vida, as pessoas, a paciência, o amor. E isto é realmente lindo. Cada aluno que passou por minha vida, seja criança, adolescente, adulto, com certeza me trouxe algum aprendizado e me deixou sua marca. Espero que estes também tenham levado algo bom para a vida através das minhas aulas.” – (Isabela Cotrim: http://blogs.odiario.com/palcoeplateia/2013/10/15/professor-ator-sala-aula/

Quem tem a oportunidade de viver as duas realidades aqui tratadas: ator e professor, como é o caso da autora acima, pode se expressar com propriedade sobre a identidade que une as duas profissões. Como o ator carrega a responsabilidade de representar com perfeição a peça encenada, para dar ao público a viva sensação de voltar no tempo ou “viajar” por ele, o professor engajando seu público em determinado assunto leva-o a descobertas fantásticas através de “viagens” inesquecíveis. Visto desse modo em sua forma de interagir, o professor é um ator que além da interação com seu público, dá sentido e significância para cada cena interpretada, aprimorando sua atuação a cada espetáculo pelo dinamismo da recíproca aprendizagem. O mestre Paulo Freire, apaixonado pela arte de ensinar e aprender, afirmava:

“Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, contatando intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.”

Assim, a arte, tanto no palco teatral ou em uma sala de aula, está a serviço do desenvolvimento de pessoas. Nesse contexto age o personagem/ator que ao mesmo tempo é, sob alguns aspectos, o agente transformador que dá “vida” a uma ideia, a um roteiro, a um plano, com a finalidade de criar identidade e conexão com o público para oferecer interação, oportunidades, alegria, aprendizagem e desenvolvimento.

O professor como ator vive com amor, alma e paixão cada detalhe das cenas que apresenta a seu público. Ele interage para que a dramatização desperte a viva emoção em cada participante. Pode ser com lágrimas ou com sorrisos, sendo o mocinho, ou o vilão. O ator/professor que se encanta com o público é por essência o que encanta o público. E por essa “simbiose” são esses atores/professores que são imortalizados na vida do público que dá vida aos seus espetáculos.

Referência

https://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/9539/000059220.pdf  > Acesso em 29 de junho de 2018
http://blogs.odiario.com/palcoeplateia/2013/10/15/professor-ator-sala-aula /> Acesso em 29 de junho de 2018
https://www.pensador.com/paulo_freire_frases_educacao/2/> Acesso em 02 de julho do 2018

 

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